
A biológica Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e responsável pelos estudos da polilaminina, abordou em uma recente entrevista no programa Roda Viva, realizada no dia 23, questões relacionadas aos dados preliminares de sua pesquisa. Durante a conversa, Sampaio levantou a possibilidade de conduzir as próximas fases do estudo sem um grupo controle, uma prática que suscita polêmica na comunidade científica.
Reações da Comunidade Científica
Nos últimos dias, diversas instituições médicas e científicas manifestaram preocupações com a pesquisa, destacando a ausência de evidências científicas robustas. O número de pacientes que buscam acesso ao medicamento por meio da Justiça, através de pedidos de uso compassivo, já chega a 57, com 28 pessoas tendo recebido o tratamento. Entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia enfatizaram que a pesquisa ainda está em fase experimental, alertando que a divulgação prematura pode gerar expectativas irreais.
A Importância do Grupo Controle
Um dos principais pontos de crítica ao estudo diz respeito à ausência do grupo controle, que é essencial para a comparação dos resultados obtidos. Esse grupo pode receber um tratamento padrão, um placebo ou simplesmente o acompanhamento habitual, dependendo da natureza da pesquisa. Sem essa comparação, torna-se difícil determinar se melhorias observadas nos pacientes tratados foram realmente causadas pela polilaminina ou por outros fatores, como cuidados médicos ou a evolução natural da condição.
Causalidade em Lesões Medulares
No contexto das lesões medulares, estudos indicam que entre 10% a 30% dos pacientes podem apresentar melhora espontânea, o que complica ainda mais a atribuição de resultados positivos ao novo tratamento. A presença de um grupo controle é crucial para estabelecer uma relação de causalidade, permitindo que os pesquisadores confirmem se os efeitos observados são de fato atribuíveis à nova substância.
Possíveis Direções Futuras da Pesquisa
Embora a polilaminina ainda não tenha avançado para a fase 1 dos ensaios clínicos, Sampaio considerou a possibilidade de conduzir futuras fases sem um grupo controle, dependendo dos resultados iniciais. Ela afirmou que o desenho da pesquisa poderá variar conforme a realidade dos dados obtidos. Caso os efeitos sejam significativos, a estrutura do estudo pode ser ajustada, mesmo reconhecendo que não possui conhecimento de outros estudos semelhantes realizados sem um grupo controle.
Resultados Preliminares e Expectativas
Durante a entrevista, Tatiana Sampaio mencionou que, entre os oito pacientes avaliados, seis apresentaram alguma melhora na função motora, atingindo um índice de 75%, em contraste com a média de 10% de melhora espontânea em casos típicos. Contudo, é importante frisar que apenas um paciente recuperou a capacidade de andar, enquanto os demais relataram melhorias sensitivas e motoras sem ganhos funcionais significativos.
Considerações Éticas e Perspectivas Futuras
Além dos resultados, neurocirurgiões consultados destacaram que nem todos os pacientes que chegam sem movimentos após um trauma apresentam lesão completa da medula. Alguns podem estar em choque medular, uma condição temporária que permite a recuperação de movimentos após a fase aguda. Apesar de classificar a polilaminina como promissora, Tatiana Sampaio alertou que a pesquisa ainda está em andamento e requer cautela, reconhecendo que a repercussão da pesquisa foi além do que normalmente se observa na ciência.
As implicações éticas e as expectativas criadas em torno da polilaminina são questões que continuarão a ser debatidas na comunidade científica, à medida que a pesquisa avança e novos dados se tornam disponíveis.
Fonte: https://jc.uol.com.br







