As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, que tiveram sua abertura em 6 de outubro de 2023, servem como um forte indicativo dos efeitos adversos do aquecimento global. Um estudo recente do Instituto Talanoa revela que, para a edição de 2026, cerca de 85% da neve utilizada nas competições será artificial, refletindo uma tendência crescente que se intensificou desde os Jogos de Sochi em 2014.
Produção de Neve Artificial e Seus Custos
Para atender à demanda das competições, os organizadores planejam gerar 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial, uma operação que requer a impressionante quantidade de 946 milhões de litros de água. Para se ter uma ideia do volume, isso equivale a encher um terço do espaço do famoso estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, transformando-o em um enorme reservatório.
A Evolução da Produção de Neve nas Olimpíadas
A dependência de neve artificial tem se tornado uma característica marcante das recentes edições dos Jogos de Inverno. Em Sochi, aproximadamente 80% da neve foi gerada por máquinas. Esse número subiu para 98% em PyeongChang, em 2018, e atingiu a marca de 100% nas competições realizadas em Pequim, em 2022. Esse fenômeno destaca a crescente dificuldade em manter a neve natural nas pistas de competição.
Mudanças Climáticas e a Redução de Locais Confiáveis
O número de localidades capazes de sediar os Jogos Olímpicos com condições climáticas favoráveis está diminuindo rapidamente. Mesmo com a tecnologia disponível, o aquecimento global tem encurtado os invernos, dificultando a manutenção da neve e aumentando a incerteza para eventos ao ar livre. Entre 1981 e 2010, 87 locais eram considerados climáticos adequados para a realização dos Jogos, mas projeções indicam que esse total pode reduzir para apenas 52 até 2050 e atingir apenas 46 até 2080, mesmo em cenários moderados de redução de emissões de gases do efeito estufa.
Consequências Além do Esporte
A redução da neve natural não é um problema restrito ao mundo esportivo; ela está inserida em um contexto mais amplo de mudanças climáticas. Invernos estão se tornando mais quentes e imprevisíveis, e dados de satélites mostram que a extensão do gelo marinho no Ártico permanece abaixo da média histórica. Em 2012, a menor extensão já registrada foi de 3,8 milhões de km², e, em 2025, a área atingiu 12,45 milhões de km², ainda abaixo dos padrões históricos de 1991 a 2020.
Impactos Econômicos e Ecológicos
Conforme apontado pelo Instituto Talanoa, as repercussões vão além da prática esportiva. A neve atua como um reservatório natural de água, liberando-a gradualmente ao longo do ano. Com menos neve, há uma redução na vazão dos rios, o que pressiona os reservatórios e prejudica o turismo de montanha, além de causar desequilíbrios em ecossistemas que dependem do frio, impactando modos de vida e economias locais.
A História dos Jogos Olímpicos de Inverno
Os Jogos Olímpicos de Inverno, que tiveram sua primeira edição em 1924 nos Alpes franceses, surgiram em uma época de abundância de neve natural. Tradicionalmente, as sedes estão localizadas em áreas montanhosas e em latitudes elevadas, conhecidas por seus invernos rigorosos, como os Alpes europeus, o Canadá, os Estados Unidos e o norte da Ásia. No entanto, um século depois, a realidade atual mostra que, sem a utilização de máquinas e grandes volumes de água, a realização do evento se tornaria inviável.
Conclusão
As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina não apenas destacam a evolução do esporte, mas também servem como um alerta sobre o impacto das mudanças climáticas nas tradições globais. A crescente dependência de tecnologia para a produção de neve artificial ilustra os desafios que o mundo enfrenta, exigindo uma reflexão sobre a sustentabilidade e o futuro dos eventos esportivos em um planeta em mudança.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br








