A decisão do Banco Central de manter a Selic em 13,75% ao ano prolonga o período de crédito caro no Brasil, aumentando as preocupações com o crescimento econômico. A interrupção do ciclo de cortes ocorre em meio à piora das expectativas de inflação, valorização do dólar e incertezas sobre a política fiscal após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Brasil lidera juros reais globais
Com a decisão, o Brasil permanece na liderança mundial dos juros reais, que descontam a inflação esperada. Segundo levantamento das consultorias MoneYou e Lev Intelligence, a taxa brasileira chegou a 9,49% ao ano, superando Turquia, Argentina e Rússia. O Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu uma sequência de cinco reduções iniciada em março, refletindo a avaliação de um cenário econômico mais arriscado.
Inflação e expectativas de alta pressionam política monetária
A deterioração das expectativas de inflação foi determinante para a pausa nos cortes. O Boletim Focus projeta o IPCA de 2026 em 5,22%, acima do teto de 4,5% da meta de inflação. Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, avalia que o Banco Central enfrenta uma combinação desfavorável de inflação persistente e desaceleração econômica. Ele prevê que a Selic permaneça em 13,75% até que as expectativas de inflação melhorem.
Indústria critica manutenção da Selic
Entidades empresariais criticaram a interrupção dos cortes. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera que a Selic poderia continuar caindo sem comprometer o controle da inflação. A CNI estima o juro real em 8,4%, diante de uma taxa neutra de 5%. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) também classificou a decisão como equivocada, destacando a retração da indústria de transformação.
Endividamento das famílias e impacto no consumo
Os juros elevados não afetam apenas as empresas. Segundo a CNI, o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 29%, o maior percentual em 21 anos. O comércio já apresenta sinais de enfraquecimento, com o volume de vendas em agosto abaixo do registrado em janeiro. Esses indicadores mostram como a manutenção dos juros elevados pode prolongar a desaceleração econômica.
Incerteza fiscal dificulta redução de juros
A reação dos mercados após a eleição presidencial acrescentou obstáculos à política monetária. A desvalorização do real e a elevação dos juros de longo prazo refletem preocupações com as contas públicas. A CNI argumenta que a deterioração das contas precisa ser enfrentada por medidas fiscais, em vez de depender exclusivamente de juros elevados. A Firjan defende um compromisso com o equilíbrio fiscal e reformas para aumentar a produtividade.
Fonte: veja.abril.com.br
